Artigo
Anemia: um problema sério entre as crianças brasileiras

Dra. Jocelem Mastrodi Salgado
Prof. Titular em Nutrição - LAN/ESALQ/USP

Uma grande preocupação hoje no Brasil são os dados recentes divulgados por um estudo que foi conduzido por várias universidades estaduais e federais. Este estudo mostra dados alarmantes sobre a anemia infantil no nosso país. Ele aponta que 45% das crianças brasileiras com até 3 anos apresentam quantidades insuficientes de ferro no sangue, resultando no que chamamos de anemia ferropriva. Nos anos 70, as taxas nacionais de anemia infantil eram próximas de 20%.

Os resultados preocupam pois estima-se que praticamente metade das crianças brasileiras pode ter o crescimento retardado e o aprendizado escolar comprometido devido a ingestão de dietas pobres em ferro. Entretanto, esse problema não é típico de populações mais pobres nem de crianças mais magras. A dieta inadequada faz com que a anemia apareça em todas as classes sociais e em crianças rechonchudas, que aparentemente gozam de excelente saúde. Tudo depende do que os pais põem no prato de seus filhos.

O QUE É A ANEMIA FERROPRIVA?

A anemia é uma doença do sangue caracterizada pela diminuição dos glóbulos vermelhos, ou mais precisamente, da quantidade de hemoglobina presente nesses glóbulos. A hemoglobina é uma proteína muito importante do sangue, pois é ela que contém o ferro e o oxigênio necessários para alimentar os tecidos do corpo. Portanto, quando há diminuição dos glóbulos vermelhos ou da hemoglobina, os tecidos começam a receber uma quantidade inadequada de oxigênio e não conseguem trabalhar normalmente.

Existem várias causas de anemia, cada uma levando a diferentes alterações nas células do sangue, mas no final os sintomas são sempre os mesmos. A causa mais comum é a falta de ferro, tanto devido a uma dieta pobre deste mineral quanto a uma perda intensa de sangue, como ocorre nos traumas ou nas menstruações abundantes. Também pode ocorrer naquelas pessoas com úlcera ou problemas intestinais, que levam a perda de sangue pelo vômito ou pelas fezes.

Algumas pessoas apresentam perdas constantes de sangue, muitas vezes não detectadas, como é o caso de pacientes com câncer de rim e intestino, levando a uma anemia crônica. Portanto, resumindo, as três causas básicas da anemia ferropriva são:

  • perda crônica de sangue, tais como uma úlcera péptica que sangra, hemorróidas, parasitas ou câncer;
  • uma absorção ou ingestão deficiente de ferro, resultado de uma dieta pobre deste mineral ou de distúrbios gastrointestinais crônicos, tais como diarréia ou doença intestinal;
  • maior requisito de ferro devido ao volume de sangue aumentado, como se observa na infância, adolescência e gravidez.

É importante também salientar que bebês prematuros ou aqueles cuja mãe teve anemia na gravidez e ainda aqueles que foram amamentados por pouco tempo, provavelmente terão carência de ferro e isso deve ser levado em consideração pelo pediatra. Já os bebês amamentados no peito, não correm tanto risco pois o leite materno possui dosagem suficiente de um ferro que é imediatamente aproveitado pelo organismo. Entretanto, após 4 ou 6 meses de idade, o leite materno passa a não suprir todas as necessidades e os cuidados com a alimentação aumentam.

Existem também outros tipos de anemia como aqueles causados por deficiência de vitamina B12, ácido fólico ou por problemas hereditários em que há alteração genética na produção de hemoglobina, entretanto, este artigo tratará somente da anemia causada por deficiência de ferro.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS DA ANEMIA FERROPRIVA?

O sintoma mais comum é a palidez bem evidente nas mucosas, principalmente nas pálpebras dos olhos. Também há fadiga, fraqueza, cansaço fácil ao se exercitar, sensação de tonteira e desmaio, falta de ar. Alguns pacientes apresentam falta de apetite, o que piora mais a situação. Ë muito comum o paciente se queixar de palpitação, pois o coração bate mais rápido para compensar a falta dos glóbulos vermelhos. A criança anêmica se torna menos atenta e mais apática na escola. O seu crescimento físico e mental podem ficar retardados.

QUAL É O DIAGNÓSTICO DA ANEMIA FERROPRIVA?

O diagnóstico é feito através do exame de sangue, tanto na contagem dos glóbulos vermelhos como na dosagem de hemoglobina. Também pode-se fazer outros exames de sangue para detectar alterações da hemoglobina. Os níveis de ferritina plasmática e da saturação de transferrina são também muito importantes. É útil fazer também exame de fezes e urina para detectar se há perda de sangue pelo intestino ou pelos rins.

Em casos mais severos, é bom fazer exame da medula óssea, para ver se a produção de sangue está normal ou não.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os valores que caracterizam a anemia são:

HEMOGLOBINA
Homens adultos < 13g/dL
Mulheres adultas <12g/dL
Crianças de 6 meses a 6 anos <11g/dL
Crianças de 6 a 14 anos <12g/dL

QUAIS SÃO OS CUIDADOS NUTRICIONAIS NA ANEMIA FERROPRIVA?

Além da medicação, deve ser dada atenção à quantidade de ferro absorvível no alimento. Fígado, rim, carne, gema de ovo, frutas secas, ervilhas e feijões secos, castanhas, vegetais verdes, pão integral e cereais enriquecidos estão entre os alimentos com maior conteúdo de ferro. Outro elemento nutricional importante que deve estar presente no tratamento da anemia ferropriva é a vitamina C (presente em laranja, acerola, limão, etc), que se ingerida junto com a alimentação melhora grandemente a absorção do ferro.

Em resumo, podem ser feitas as seguintes recomendações:

  • melhorar as escolhas de alimento para aumentar a quantidade de ferro dietético total;
  • incluir uma fonte de vitamina C em cada refeição;
  • evitar beber grandes quantidades de chá ou café com as refeições (pois diminuem a absorção do ferro por conter taninos);
  • evitar grandes quantidades de EDTA, verificando os rótulos dos alimentos para ver a sua presença.

As recomendações diárias de ferro são:

FERRO
Crianças 10mg
Adolescentes Homem 12mg
Adolescentes Mulher 15mg
Adultos Homem 10mg
Adultos Mulher 15mg
Gestantes 30mg

 

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