ADOÇANTES DIETÉTICOS: DOÇURA QUE NÃO VEM DA CANA
Dra.
Jocelem Mastrodi Salgado
Profª. Titular de Nutrição – LAN/ESALQ/USP
Há duas décadas, por volta dos anos 80, o consumo de adoçantes dietéticos no Brasil limitava-se a portadores de diabetes, que necessitam restringir o consumo de açúcar. Entretanto, nos últimos cinco anos o mercado de adoçantes no nosso país triplicou, impulsionado por um grande número de consumidores cada vez mais preocupados com a saúde e com o impacto que uma dieta rica em açúcar tem sobre a qualidade de vida. A invasão das prateleiras de produtos dietéticos e light tem sido tão intensa que inúmeras dúvidas acabam surgindo entre as pessoas, tal é a ampla gama de adoçantes comercializados. Além disso, muitas controvérsias ainda existem com relação à segurança de uso dessas substâncias. Embora muitos estudos mostrem que não há qualquer efeito prejudicial, os adoçantes ainda despertam dúvidas e calorosas discussões entre os pesquisadores.
O QUE SÃO ADOÇANTES ?
O adoçante dietético é produzido a partir de edulcorantes, substâncias naturais ou artificiais responsáveis pelo sabor doce. Eles possuem um poder de adoçamento muitas vezes muito maior que o açúcar de cana (açúcar comum) e são recomendados para dietas especiais como as de restrição (principalmente para diabetes) e de emagrecimento. Embora exista atualmente uma ampla variedade de adoçantes como o ciclamato, a sucralose, o acessulfame-K, o steviosídeo, entre outros, parece que a sacarina e o aspartame são os preferidos de grande parte dos consumidores. A seguir, veja uma relação dos principais tipos de adoçantes encontrados no mercado, com suas respectivas características:
1.CICLAMATO
O ciclamato é um adoçante sintético, não calórico, que foi descoberto em 1940,
a partir de um derivado do petróleo, o ácido ciclo hexanosulfâmico. Com um poder
adoçante que supera em 30 vezes o da sacarose (açúcar comum), o ciclamato hoje
é permitido no Brasil, Estados Unidos, Canadá e em mais de quarenta países,
embora tenha sido banido alguns anos atrás em certos países, depois que alguns
estudos o associaram ao aumento do risco de câncer de bexiga em ratos. Apresenta
um sabor próximo do açúcar, mas com residual amargo. É um dos adoçantes mais
baratos do mercado e é muito utilizado pela indústria, principalmente de refrigerantes
dietéticos. Deve ser evitado por hipertensos, já que costuma aparecer na forma
sódica, ou seja, combinado com sódio.
2. SACARINA
A sacarina é o adoçante artificial não calórico mais antigo que existe. Sua
descoberta ocorreu em 1879 e sua utilização ocorre desde de 1900. Também extraída
de um derivado do petróleo, o ácido sulfanoilbenzóico apresenta um poder adoçante
de 200 a 700 vezes maior que o açúcar da cana (sacarose). Sozinha, em altas
concentrações, a sacarina tem gosto residual amargo e metálico e, por isso,
é normalmente associada ao ciclamato. No nosso organismo ela é absorvida lentamente,
mas não é metabolizada, sendo excretada de forma inalterada pelo rim. Sua maior
qualidade é o fato de ser estável a altas temperaturas, podendo ser utilizada
em preparações quentes. Apesar de altas doses de sacarina terem sido associadas
ao aumento da incidência de câncer de bexiga em ratos, esses resultados foram
reavaliados e os novos estudos indicam que os tumores em ratos crescem devido
a mecanismos que não são relevantes para as condições humanas. Por isso, o governo
americano retirou oficialmente a sacarina da lista de agentes cancerígenos.
3. ASPARTAME
O aspartame
é um adoçante não calórico artificial, descoberto em 1965. Obtido a partir de
dois aminoácidos naturais presentes em vários alimentos, o ácido aspártico e
a fenilalanina, o aspartame talvez seja o adoçante mais apreciado devido ao
seu sabor bastante parecido com o açúcar, sem apresentar residual amargo. Com
um poder de doçura de 60 a 200 vezes maior que o da sacarose, o aspartame perde
sua doçura quando submetido a altas temperaturas. Por isso, sugere-se que seja
utilizado em alimentos e líquidos após a retirada do fogo. É contra-indicado
para os portadores de fenilcetonúria (incapacidade do organismo de metabolizar
a fenilalanina), uma anomalia rara que geralmente é diagnosticada no nascimento
(pelo teste do pezinho). Pelo mesmo motivo, também se desaconselha o uso por
grávidas. Ultimamente têm surgido algumas discussões a respeito do uso deste
adoçante tem surgido no meio científico e na imprensa, gerando controvérsias.
Notícias associando o uso do aspartame ao aparecimento de tumores, mudanças
de humor, perda de memória entre outros malefícios tem assustado as pessoas.
Entretanto, não existem comprovações científicas até o momento de que o aspartame
cause qualquer anomalia. Os estudos mostram que somente um consumo muito além
do normal poderia provocar efeitos no sistema nervoso. Por isso, a Organização
Mundial da Saúde (OMS) sugere uma quantidade limite de ingestão, e isso vale
para qualquer adoçante artificial. Embora até o momento os estudos mostrem que
o aspartame é seguro para consumo, cientistas mais desconfiados continuam pesquisando
a relação do consumo sem controle do aspartame com câncer no cérebro, útero,
ovário e no pâncreas. Com relação aos efeitos negativos do produto sobre a memória,
alguns estudos estão sendo conduzidos para demonstrar que o aspartame, depois
de metabolizado no organismo, se transforma em metanol, substância tóxica que
pode afetar o cérebro, mesmo em pequenas quantidades.
4. ACESSULFAME
– K
Descoberto em 1967, o acessulfame foi aprovado pelo Food and Drug Administration
(FDA, por sua sigla em inglês) em 1988 para uso em bebidas, sobremesas, gomas
de mascar e adoçantes de mesa. O acessulfame- K é um sal de potássio sintético
produzido a partir de um ácido da família do ácido acético. Com um poder de
doçura de 180 a 200 vezes maior que o açúcar, esse adoçante tem um sabor residual
semelhante ao da glicose. O organismo o absorve, mas não o metaboliza, o que
significa que é eliminado tal como é ingerido. É um adoçante considerado totalmente
seguro e por ser estável a altas temperaturas facilita sua utilização em preparações
forno e fogão..
5. SUCRALOSE
Adoçante obtido a partir da cloração da sacarose, é o único derivado do açúcar.
Apresenta um poder de doçura 600 vezes superior ao do açúcar, resistindo muito
bem às altas temperaturas, não possuindo sabor residual amargo. O FDA (EUA)
aprovou seu uso com base em inúmeras pesquisas que mostraram que o adoçante
não apresenta efeitos tóxicos, nem efeitos carcinogênicos, reprodutivos e neurológicos.
6. STEVIOSIDEO
Adoçante natural descoberto em 1905, extraído da estévia, uma planta originária
da Serra do Amanbaí, na fronteira do Brasil com o Paraguai. É muito consumido
no mundo oriental, principalmente no Japão. Seu poder adoçante é cerca de 200
a 300 vezes maior que o da sacarose, sendo o único adoçante de origem vegetal
produzido em escala industrial. É totalmente atóxico e seguro ao organismo,
mas seu uso é pequeno devido a um sabor residual amargo que possui.
7. XYLITOL,
SORBITOL E MANITOL
Esses adoçantes, obtidos pela redução da glicose (sorbitol) e frutose (manitol)
e também pela hidrogenação da xilose (xylitol), têm sido amplamente empregados
pela indústria na produção de goma de mascar e balas, já que não causam cáries.
São adoçantes calóricos sendo que cada grama contém 4 kcal.
ADOÇANTES: A DOSE CERTA
Os adoçantes são seguros se utilizados na dose correta, de forma não exagerada. Como eles possuem um poder de doçura maior que o açúcar, pequena quantidade é o suficiente para dar sabor a alimentos e bebidas. Deve ficar claro também que crianças não devem usá-los; a lactose presente no leite (açúcar do leite) e a frutose das frutas e sucos garantem um bom suprimento de carboidratos às crianças. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere uma quantidade limite de ingestão dos adoçantes artificiais, em que o cálculo deve ter por parâmetro o peso corporal da pessoa. Veja, a seguir, a recomendação máxima diária de acordo com a OMS:
RECOMENDAÇÃO MÁXIMA DIÁRIA DE ADOÇANTES (OMS)
Para obter o valor diário (máximo) recomendado basta multiplicar o valor abaixo pelo seu peso.
DICAS PARA CONSUMIR ADOÇANTES CORRETAMENTE
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* Profª. Titular de Nutrição da Esalq/USP/Campus Piracicaba. Autora de diversos livros, entre eles: "Alimentos Inteligentes", “Previna Doenças. Faça do Alimento o seu Medicamento” e “Pharmácia de Alimentos. Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças”. (www.jocelemsalgado.com.br)