O EXCESSO DE PESO TEM FORTE VÍNCULO COM O CÂNCER
Dra. Jocelem Mastrodi Salgado
Profª. Titular de Nutrição – LAN/ESALQ/USP
O excesso de peso caracteriza-se por ser um estado no qual o peso excede um padrão baseado na altura. A gordura excessiva, geral ou localizada, pode levar a uma doença de caráter endêmico e que hoje está sendo considerada um problema sério de saúde pública no Brasil: a obesidade. A obesidade, além de ser uma doença de caráter genético, é uma enfermidade hoje relacionada principalmente às mudanças de hábitos alimentares e ao sedentarismo, e a industrialização é considerada uma das principais causas responsáveis por tudo isso. A indústria moderna tem proporcionado ao homem, nos últimos anos, gêneros alimentícios poucos saudáveis (produtos processados ricos em gordura, alimentos refinados com baixo teor de fibras, fast-foods, etc) e por outro lado, gerado o comodismo entre as pessoas (carros cada vez mais confortáveis, máquinas que substituem o serviço braçal, controles remoto, etc.). Isso faz com que o homem se movimente cada vez menos e deixe de lado uma alimentação balanceada rica em frutas, vegetais, cereais e leguminosas.
Segundo os estudiosos, o aumento da obesidade é mundial, atingindo principalmente os países industrializados, e dados recentes indicam que o Brasil está deixando de ser um país de desnutridos e se tornando um país de obesos. Pesquisas realizadas entre 1975 e 1996 mostram que a prevalência da obesidade em brasileiras de 18 a 49 anos quase triplicou de 4,4% para 10,1%. Já em crianças do sexo feminino em idade pré-escolar, no período de 1971 a 1996, o índice de obesidade duplicou de 3,6% para 7,6%. Entretanto, nos EUA esses índices são muito mais elevados. Para se ter uma idéia, em 1989 o Brasil possuía 13,3% de mulheres obesas, enquanto que os EUA, em 1991, contava com 24,7% de obesas, em sua maioria negras. Enquanto o Brasil soma quase 20% de obesos, entre homens e mulheres, mais de 35% da população norte americana possui IMC acima de 30.
Atualmente, os métodos mais utilizados para se estabelecer um padrão para o peso corpóreo ideal são o IMC (índice de massa corporal) e a razão cintura/quadril, que compara a medida da circunferência da cintura e quadris para identificar as formas clínicas da obesidade: andróide, onde a distribuição de gordura predomina acima do umbigo, ou seja, parte superior do corpo; e ginóide, onde a gordura predomina na região inferior do corpo e mista onde a gordura é distribuída de forma indeterminada ou difusa. A forma clínica mais grave é a andróide ou abdominal, associada ao maior risco de doenças e mortalidade. Você pode calcular seu IMC usando a fórmula abaixo e comparar o seu resultado com os dados da tabela de classificação apresentada a seguir: IMC* = peso / altura x altura.
CLASSIFICAÇÃO
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18,5 peso deficiente
entre 18,5 – 25 peso normal
entre 25 – 30 sobrepeso
> 30 obeso (a)
> 40 obesidade mórbida
* O IMC não é medida adequada para atletas, crianças, mulheres grávidas e idosos frágeis.
Um recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), “Obesidade: Prevenindo a epidemia global” chama a atenção para o problema que mais assusta médicos e pesquisadores com relação ao excesso de peso, ou seja, a estreita relação da obesidade com outros problemas crônicos como o diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e câncer. De acordo com o relatório do American Institute for Cancer Research (AICR) de 1997, “Alimento, Nutrição e Prevenção ao Câncer: uma Perspectiva Global”, existem várias evidências de que a obesidade aumenta o risco de câncer do útero, mama e rim, e possivelmente do cólon e vesícula.
Por isso, reconhecer a obesidade como uma séria ameaça para a saúde é um passo positivo para combatê-la. A relação entre a massa corporal, câncer e outros problemas de saúde tem-se tornado clara. Isso nos permite estabelecer parâmetros para uma boa saúde e um menor risco de câncer. O relatório do AICR recomenda manter um índice de massa corporal (IMC) entre 18,5 e 25 e limitar o ganho de peso na idade adulta para menos que 5Kg. Entretanto, ao calcular o seu IMC você deve ter em mente que esse índice não olha quão musculoso você é ou para a gordura distribuída no seu corpo. Por exemplo, se a gordura que você carrega está centrada na linha da cintura (gordura visceral), você pode ter um risco de câncer muito maior, assim como de outras doenças, quando comparado com alguém com o mesmo IMC, porém com uma distribuição de gordura diferente.
EXCESSO DE PESO X RISCO DE CÂNCER: MECANSIMOS PROPOSTOS
Os estudos mostram que a obesidade tem a capacidade de alterar os níveis de hormônios sexuais no nosso organismo. A explicação mais aceita entre os pesquisadores com relação ao câncer de útero e mama, é aquela que mostra que a gordura pode converter o hormônio masculino andrógeno em hormônio feminino estrógeno e o alto nível deste último pode aumentar o risco de câncer depois da menopausa. Há mais estrógeno no corpo de uma mulher obesa e, portanto, um balanço de hormônio sexual é necessário para diminuir o risco de câncer.
Além do estrógeno, alguns estudos também referenciam a hiperinsulinemia e os fatores de crescimento (IGFs) como ligados ao desenvolvimento celular e proliferação, podendo trabalhar juntos para o desenvolvimento de certos tipos de câncer de mama. A obesidade central e a gordura abdominal estariam, portanto, referenciadas como fatores de risco.
O mecanismo pelo qual a obesidade afeta o câncer de rim e cólon é menos claro. Fatores hormonais e o modo como o corpo metaboliza a gordura podem estar atrás do aumento do risco de câncer de rim. A quantidade de tempo que as substâncias levam para passar o intestino grosso proporciona uma explicação parcial ao aumento do risco de câncer de cólon. Alimentos fibrosos e atividades físicas (que raramente são realizadas por indivíduos obesos) podem reduzir o tempo de trânsito, diminuindo, dessa forma, o tempo que a parede do cólon permanece exposta às substâncias com potencial cancerígeno.
Finalmente, a obesidade promove um meio favorável para o desenvolvimento de tumores no organismo. As células, incluindo as cancerígenas, crescem mais facilmente quando a quantidade de calorias no organismo é abundante.
MANTENHA SEU PESO IDEAL
Há ainda muito o que aprender sobre como a obesidade afeta no risco de câncer, mas nós sabemos que evitar o peso em excesso ou emagrecer, pode beneficiar sua saúde e suas formas, incluindo redução do risco de câncer. Até mesmo uma pequena perda de peso pode trazer benefícios. A seguir, algumas dicas para você manter seu peso ideal e evitar o risco de doenças:
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Para quem quer obter dicas e sugestões sobre uma alimentação adequada para perda e manutenção do peso, bem como informações sobre alimentos desenvolvidos pela nossa equipe da Esalq/USP, clique aqui
* Profª. Titular de Nutrição da Esalq/USP/Campus Piracicaba. Autora de diversos livros, entre eles: "Alimentos Inteligentes", “Previna Doenças. Faça do Alimento o seu Medicamento” e “Pharmácia de Alimentos. Recomendações para Prevenir e Controlar Doenças”. (www.jocelemsalgado.com.br)